domingo, 13 de setembro de 2009

Planeta negocia seu futuro com o clima

COP-15 deve incluir mecanismos alternativos para para manter a temperatura em níveis seguros.

O mundo descobriu que precisa fazer mais para conter as emissões de gases do efeito estufa e se prepara para tomar decisões que podem selar uma nova era na luta contra o aquecimento global. As atenções - e também as esperanças - se voltam para a COP 15, a conferência agendada para dezembro, em Copenhague, na Dinamarca, reunindo os países signatários da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças no Clima. Na visão do economista britânico Nicholas Stern, autor dos primeiros estudos sobre o custo global para controlar o clima no planeta, "o encontro será tão decisivo quanto a reunião de Bretton Woods, onde os aliados definiram a geopolítica do mundo após a II Guerra".

"Trata-se certamente do processo internacional mais importante do ano", afirma o negociador-chefe do Brasil, o embaixador Luiz Alberto Figueiredo Machado. A COP 15 poderá resultar em metas mais ambiciosas para a redução de carbono, em ações mais efetivas dos países em desenvolvimento, maior abertura para a conservação de florestas e regras para financiar todo esse esforço.

Com base em relatórios científicos, os países concordam - dentro do que se chama de "visão compartilhada" - que a elevação da temperatura em 2º C em relação à era pré-industrial é o limite máximo de segurança para o planeta. Acima desse nível, a situação pode sair do controle e tornar-se catastrófica, com graves impactos econômicos e sociais. Hoje o aumento é de 0,7º C, mas os gases já lançados na atmosfera têm o poder de elevar a temperatura para 1,6º C, mesmo se todas as emissões fossem cortadas. O foco da disputa está em evitar o aumento além de 0,4º C na temperatura média da Terra.

O Protocolo de Kyoto, assinado em 1997, estipulou metas obrigatórias para os países industrializados diminuírem as emissões em média 5,2% até 2012, em relação a 1990. No entanto, os últimos estudos científicos do IPCC (Intergovernamental Panel on Climate Change), divulgados em 2007, constataram que o acordo é insuficiente para conter o aquecimento global. Como resultado, os esforços se voltaram para a negociação de cortes mais ambiciosos dos países ricos e soluções para que também os países em desenvolvimento entrem no jogo após 2012.

A principal proposta em debate, apresentada por um bloco de 36 países em desenvolvimento sob a liderança do Brasil, é a redução dos gases-estufa nas nações desenvolvidas em 40% até 2020. O corte seria suficiente para manter a temperatura planetária em níveis seguros, contando com a participação dos Estados Unidos. A União Europeia acenou com 20% de diminuição de gases em relação a 1990 - exceto Reino Unido, que aceita 34%. Os americanos, que não assinaram o Protocolo de Kyoto, mas dão sinais de que se engajarão no esforço global, falam em apenas 8% de redução. "Isso não é compatível com a urgência do problema da mudança climática", adverte José Domingos Miguez, do Ministério da Ciência e Tecnologia, integrante do grupo brasileiro de negociação.

O impasse exige novas cartas na mesa. Mecanismos alternativos deverão ser criados em Copenhague para que os países em desenvolvimento assumam algum nível compromisso, sensibilizando os ricos para a adoção de metas maiores e para o repasse recursos financeiros à mitigação dos gases nas regiões emergentes. "Há consenso que o esforço global deve ser significativo, seja pelas metas de redução do bloco desenvolvido ou pelas ações voluntárias de mitigação dos países em desenvolvimento", revela Miguez.

"É preciso um esforço grande para que a reunião de Copenhague tenha sucesso, mas temos esperança de um acordo justo", afirma João Talocchi, coordenador da campanha de clima do Greenpeace no Brasil. O jogo é complexo: "O que temos hoje é comparável a jogar peças de cinco quebra-cabeças para o alto e tentar montar apenas um", ilustra o ambientalista, retratando o resultado da recente reunião preparatória para a COP-15, realizada em Bonn, na Alemanha. "É importante chegar a um documento-base com propostas em condições de serem negociadas em Copenhague", explica Talocchi.

O cenário esperado para Copenhague resulta de um processo que começou na década de 80 com os primeiros debates sobre a influência do homem no efeito estufa. O tema ganhou corpo com a Convenção da ONU sobre Mudanças do Clima, na Rio 92, culminando cinco anos depois no Protocolo de Kyoto. Quando a Rússia finalmente ratificou o acordo em 2005, somando um número de países que totalizou o mínimo de 55% das emissões globais, o Protocolo passou a vigorar em todo o mundo com metas para reduzir emissões até 2012.

O desafio é definir o que fazer a partir de 2013. As negociações seguem duas diferentes rotas. No chamado AWG (Ad Hoc Working Group for Kyoto Protocol), o objetivo principal é definir novas metas de emissão para a temperatura global não subir além dos 2º C. Os países desenvolvidos aceitam a metade do que reivindicam os emergentes até 2020. A diferença equivale a 4,3 Gigatons de carbono, ou seja, duas vezes as atuais emissões do Sudeste Asiático e quatro vezes a do Brasil. "A União Europeia aumentará a redução se os Estados Unidos entrarem no acordo com compromissos compatíveis", analisa Carlos Ritti, coordenador do Programa de Mudanças Climáticas do WWF-Brasil. A posição americana, segundo ele, poderá dar uma guinada na luta contra o aquecimento.

A segunda frente é a AWGLCA (Long-Term Cooperative Action under the Convention), na qual os países se dividem em blocos para o debate de temas polêmicos, como a mitigação dos gases-estufa. O debate inclui também a adaptação aos efeitos da mudança climática, a exemplo da elevação do nível do mar e mudanças na produção de alimentos. O financiamento e a transferência de tecnologia para os países mais pobres completam a lista.

Os grupos ambientalistas calculam que os países em desenvolvimento precisam de US$ 160 bilhões por ano para crescer economicamente sem aumentar o aquecimento global. O primeiro ministro inglês, Gordon Brown, já falou em US$ 100 bilhões e o tema será discutido na próxima reunião do G -20, em Pittsburg (EUA), em setembro. Uma das propostas em jogo é criar um novo organismo financeiro, uma espécie de agência mundial do clima, para gerir os recursos de maneira equitativa. Os recursos poderão ser levantados via leilão das reduções obtidas pelos países além da meta ou com a definição de um percentual do PIB.

Discute-se também o tempo de duração dos compromissos pós-2012. Há propostas para dez, oito e cinco anos. O período menor contribui no caso de haver necessidade de novas metas, após os resultados do próximo estudo do IPCC sobre clima, a ser divulgado entre 2014 e 2015, que vai avaliar o teor seguro de carbono na atmosfera nos próximos dez anos. O assunto está hoje em negociação com vistas a Copenhague. A atmosfera concentra atualmente 387 partes por milhão de carbono. As Ilhas Tuvalu propõem não ultrapassar 350 partes por milhão, pois o país sofre sério risco de submergir pelo avanço do oceano. Os cientistas do IPCC consideram 450 partes por milhão como limite aceitável, mas quanto maior a concentração de carbono, maior o nível de incertezas sobre o futuro.

"Para existir 70% de chance de não ultrapassar o limite da segurança na temperatura, é preciso cortar até meados do século 80% das emissões globais referentes a 1990, o que significa a quase completa descarbonização dos países desenvolvidos", afirma o climatologista Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). "Não dá para China, Índia e Brasil crescerem com os mesmos padrões dos Estados Unidos e Europa."

Há vários grupos e interesses em disputa: o G 77+China, que reúne países em desenvolvimento; a União Europeia, com suas 27 nações representadas pela Suécia; a Alliance of Small Island States, envolvendo os países-ilha; e o Africa Group, além de outros blocos que agrupam os países mais pobres e o Environmental Integrity Group, com México, Coréia do Sul e Noruega.

O princípio das "responsabilidades comuns, porém diferenciadas", adotado pela Convenção do Clima, ganhará novas luzes. O conceito significa que todos os países têm de fazer alguma coisa contra o aquecimento global - mas nem todos devem fazer o mesmo, pois sujam o planeta em intensidades e formas diferentes. A tendência é a responsabilidade histórica dos países que desenvolveram suas economias ao custo da poluição permanecer como critério para depois de 2012. Mas, sob pressão das nações industrializadas, deve surgir um novo mecanismo que permitirá o bloco em desenvolvimento também assumir compromissos, mesmo voluntários. A novidade é o Namas (sigla em inglês para Ações Nacionalmente Apropriadas de Mitigação), que funciona como um registro internacional no qual ficam listadas as ações dos países como um compromisso externo, passível de auditoria. Também fica registrado o suporte financeiro necessário para colocar as medidas em prática.

Fonte: Valor Econômico

Entrevista sobre mudanças climáticas no Brasil

"Graduado em Meteorologia pela Universidade Federal do Pará (1993), Williams Pinto Marques Ferreira é mestre em Agronomia (Meteorologia Agrícola) pela Universidade Federal de Viçosa (1997) e doutor em Engenharia Agrícola pela Universidade Federal de Viçosa (2004)."


Na entrevista que segue, concedida por e-mail a IHU On-Line, Ferreira diz que por causa das mudanças climáticas, nos próximos dez anos, “muito mais do que experimentar sensações físicas decorrentes das mudanças do clima, serão percebidas mudanças no cenário geográfico e social brasileiro.


Ferreira atualmente é pesquisador brasileiro da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária Milho e Sorgo. Tem experiência na área de Geociências, com ênfase em Modelagem Agrometeorológica, Climatologia Urbana e Rural Biogeografia, atuando principalmente nos seguintes temas: mudanças climáticas, efeito estufa, aquecimento global, Protocolo de Kyoto e impacto ambiental.


Entrevista com Williams Pinto Marques Ferreira: Além das mudanças climáticas

IHU On-Line - Que cenário geográfico o senhor projeta para daqui a 10 anos?


Williams Pinto Marques Ferreira – Primeiramente, é preciso esclarecer um fato já definido cientificamente. Alguns dos gases participantes do efeito estufa tem longo tempo de residência na atmosfera (acima de 100 anos). Logo, mesmo se as emissões fossem interrompidas hoje, ainda assim sofreríamos as conseqüências das emissões anteriores por muitos anos.


Isso significa dizer que as mudanças continuarão a acontecer pelos próximos séculos de qualquer forma, ou seja, o cenário geográfico num curto espaço de tempo, 10 anos, tanto para o Brasil como para grande parte do mundo, sofrerá transformações e adaptações, as quais já estão acontecendo. A diferença é que atualmente isso é mais visível, e a população pobre e miserável sempre foi afetada em primeiro plano pelas mudanças do clima. Fenômenos como as migrações serão um dos aspectos sociais mais evidentes desses nos novos tempos. Na verdade, já ocorre a migração no Brasil há muitos anos: é a dos refugiados da seca do nordeste, cada vez mais intensa. O Estado de São Paulo é a maior prova dessa migração, pois concentra a maior parte de nordestinos fora de sua região de origem. Hoje, porém, ocorre outro movimento, principalmente na classe média alta que busca fugir do alto índice de violência dos grandes centros urbanos, seguindo para o interior, apesar de a violência ter migrado também para as pequenas cidades do interior, que vêm registrando a cada dia aumento no índice de violência. Enfim, nos próximos dez anos, muito mais do que experimentar sensações físicas decorrentes das mudanças do clima, serão percebidas mudanças no cenário geográfico e social brasileiro.


IHU On-Line - Qual a porcentagem de culpa da raça humana neste aquecimento global? O que fazer com a população que aumenta a cada dia?


Williams Pinto Marques Ferreira – Fato concreto é que nos só dispomos de dados de clima à bem pouco tempo. Estudos sobre o clima passado são feito com base de amostras de ar presentes em núcleos de gelo retirados de diferentes profundidades do solo nas regiões polares. E o que hoje os estudo indicam é que, a partir da revolução industrial , que aconteceu em 1870, o clima vem sofrendo mudanças de modo mais acelerado. Como não há dúvidas de que os gases participantes da intensificação do efeito estufa, com exceção do vapor d’água, são emitidos em grande parte pelo homem, é certo que temos boa parcela de contribuição na situação atual do clima.


Como a população mundial continua crescendo, com previsão de um aumento de 2,5 bilhões nos próximos 43 anos, e com projeções de alcançar mais de 9,2 bilhões de pessoas em 2050, segundo a Organização das Nações Unidas, há uma preocupação de fato com relação ao futuro. Porém, o crescimento populacional mundial tem diminuindo muito, e, segundo os estudos dos demógrafos, esse crescimento cessará durante este século.


Espaço limitado


Com relação à convivência num espaço “limitado”, acredito que a capacidade de adaptação resolverá em grande parte o problema, pois os estilos de vida e as culturas são os maiores “problemas”. Hoje percebemos que mesmo em pequenas cidades há sempre um local onde as pessoas costumam se aglomerar, no caso das cidades grandes um exemplo disso são os shoppings. Basta lembrarmos das torres gêmeas de Nova Iorque, que abrigavam mais pessoas do que certos interiores do Brasil.


O maior problema do crescimento populacional está associado à alimentação mundial. Assegurar alimento de maneira igualitária no mundo é uma utopia. Os governantes são, de maneira particular, responsáveis por assegurar o alimento as suas respectivas nações, porém devem primeiramente legislar de forma a assegurar a harmonia social, a paz e a estabilidade econômica em seus países.


Crescimento populacional e desenvolvimento sustentável


A questão do crescimento populacional está diretamente ligado ao termo desenvolvimento sustentável. As mudanças climáticas são o reflexo de um modelo econômico predador do meio ambiente, que possibilita o aumento da riqueza para alguns países em detrimento da pobreza em outro. A busca pelo desenvolvimento econômico sem degradar o ambiente sempre foi discutida, porém o que sempre aconteceu foi tão somente o crescimento econômico de alguns poucos, não considerando os aspectos das igualdades sociais. O desenvolvimento por sua vez é possível, pois embora busque a geração de riquezas, busca também a divisão desses bens com o objetivo de melhorar a qualidade de vida de todos, considerando, assim, as questões ambientais, ou seja, a saúde do planeta para as gerações futuras. Um programa de desenvolvimento econômico é fundamental para viabilizar, de maneira sustentável, a melhoria de vida dos menos favorecidos. Porém, a proteção do meio ambiente deve ser vista como parte fundamental e não como parte secundária do processo de desenvolvimento sustentável. O desenvolvimento só deveria ser possível caso fosse sustentável, ou seja, não deveria haver degradação na produção dos alimentos, além de toda a riqueza produzida ser distribuída por toda a população de forma igualitária.


IHU On-Line - No Brasil, o que as conseqüências do aquecimento global podem acarretar? E para a agricultura especificamente?


Williams Pinto Marques Ferreira – Em termos de Brasil, nossa maior dificuldade deve-se ao fato de ainda não termos um plano de adaptação e, principalmente, de mitigação para a mudança climática. Um exemplo a nível internacional é a Holanda, país que tem a maior parte de seu território abaixo do nível do mar, e atualmente dispõe de um plano de redimensionamento territorial e agrícola, pois em pouco tempo deverá ter parte de seu território submerso para se adequar às novas realidades de sua geografia, cada vez mais ameaçada pelo mar.


No Brasil, as decisões das políticas públicas ainda são insuficientes para assegurar mudanças no âmbito cultural de modo a envolver as mudanças do clima na vida do cidadão brasileiro. Ainda falta uma consciência capaz de mudar hábitos do dia-a-dia, principalmente nas grandes cidades, maiores consumidores de água e produtoras de lixo por pessoa, devido ao grande consumo de produtos industrializados.


As atuais mudanças experimentadas pelo clima nos conduzirão em pouco tempo ao aumento dos extremos mínimos alcançados em todas as estações do ano, ou seja, as madrugadas serão as mais quentes. A intensidade dos vendavais e das chuvas deverá aumentar na região sudeste, principalmente no outono. Nessa região, onde freqüentemente ocorrem o encontro de massas de ar com características opostas, embora ocorra aumento da intensidade das chuvas, não deve, a princípio, haver aumento no volume anual das chuvas. Na primavera e no inverno, por sua vez, deverão ocorrer reduções na ocorrência das chuvas.


Atividades agrícolas


Tanto o aumento quanto a redução das chuvas certamente representarão grande risco às atividades agrícolas nessa região. Os cultivos de verão também deverão ser comprometidos, principalmente nas regiões Sul e Centro-Sul. Culturas como o milho, a soja e o trigo sofrerão mudanças no tempo de duração do seu ciclo (redução), na produção de biomassa aérea e possivelmente no rendimento de grãos.


Não se deve descartar a grande possibilidade do aumento na freqüência das secas na região do semi-Árido o que certamente acarretará migração da população daquela região, aumentando o número de refugiados do clima no Brasil.


Outra real dificuldade é que hoje temos uma visão da vulnerabilidade do impacto do clima nas atuais doenças. Entretanto, é quase impossível fazer-se um prognóstico, nesse caso, para daqui a 50 anos.


IHU On-Line - Que efeitos práticos a variação de 3ºC na temperatura global média implicará até 2100?


Williams Pinto Marques Ferreira - Muitas são as projeções diante do aumento de 3 oC até o final desse século, o que deve causar um total desequilíbrio em vários ambientes do nosso planeta. Porém, ocorre diante dessas mudanças o fenômeno da retoalimentação climática. Nesse ponto encontra-se a maior dúvida dos cientistas, afinal os modelos, por mais sofisticados que possam ser, ainda têm muita limitação na representação dos efeitos da retoalimentação climática, que poderá intensificar ou não as mudanças do clima ao longo desse período. Atualmente, o maior efeito prático visível é o derretimento parcial da água presente no manto de gelo dos continentes gelados, capaz de contribuir para a elevação do nível dos oceanos e modificar as correntes marítimas, como convecção termohalina e, conseqüentemente, alterar a produtividade biológica, modificando, com isso, o processo de troca de CO2 entre os oceanos e a atmosfera. Mudanças nos padrões atuais certamente também acontecerão. De modo geral, os efeitos são ainda imprevisíveis, pelo menos com certa margem de segurança. A terra já passou por mudanças de temperaturas superiores aos 3 oC ao longo dos seus 4,5 bilhões de anos. O difícil é considerar que as mudanças serão semelhantes uma vez que nessa escala de tempo muita coisa no planeta mudou.


IHU On-Line - O Protocolo de Kyoto e o mercado de carbono são suficientes para estancar as mudanças perigosas?


Williams Pinto Marques Ferreira - Não podemos esquecer que o Protocolo de Kyoto é o resultado de uma série de outras conferências, inclusive a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (UNFCCC) na ECO-92 em junho de 1992 no Rio de Janeiro, do qual o Brasil foi o primeiro signatário.


Definido em Kyoto, no Japão, em 1997, o protocolo de Kyoto só passou a vigorar em 16 de fevereiro de 2005, após a ratificação pela Rússia em Novembro de 2004. O principal objetivo foi assegurar diante de um tratado internacional que os que mais emitem carbono para a atmosfera reduziriam suas emissões em no mínimo 5,2% até 2012, em relação aos níveis de 1990.


Diante da realidade verificada nas conferências anteriores a Kyoto, ficou claro que as boas intenções dos países envolvidos não seriam suficientes para garantir a palavra empenhada na redução das emissões de carbono para a atmosfera. O discurso bem intencionado ia muitas vezes de encontro aos interesses econômicos daqueles países. Surgiu então um mecanismo capaz de compensar ou punir a ocorrência ou falta de ações concretas benéficas à saúde do planeta. O mercado de carbono veio para envolver os países capazes de reduzir a emissão de carbono para a atmosfera, e aqueles “cheios de boa vontade de reduzir as emissões”, porém não capazes de realizar tal tarefa por conta própria.


Frente aos fatos, o protocolo de Kyoto não assegura uma solução definitiva, afinal, precisa evoluir muito. Como qualquer negócio comercial, precisa excluir os interesses obscuros e não se tornar uma ferramenta oficial, capaz de assegurar o direito de poluir àqueles mais desenvolvidos, com maior poder econômico.


Por outro lado, houve grande progresso ao longo das inúmeras conferências internacionais que já ocorreram desde a década de 1980, sendo o protocolo de Kyoto e seus mecanismos a maior conquista em benefício da saúde do planeta. Não se deve esquecer que se trata de um acordo internacional não entre três ou quatro países, mas sim entre mais de uma centena de países que possuem culturas, desenvolvimento econômico e interesses bastante diversos.


IHU On-Line - O que virá após Kyoto, uma vez que os próprios cientistas o consideram limitado? Quais serão os desafios políticos do acordo pós-Kyoto?


Williams Pinto Marques Ferreira - O Pós-Kyoto já está em plena negociação e representa um novo desafio, tão grande quanto foi o próprio Kyoto. Como se supunha, mais cedo ou mais tarde os Estados Unidos participariam dessa discussão, afinal naquele país existe a política interna, assim como em qualquer parte do mundo, e isso chegaria um dia a se tornar um problema de política interna do próprio país. Entretanto, mais difícil do que mudar hábitos dos maiores poluidores do planeta será frear o crescimento do consumismo na China. Como o mundo irá convencer os chineses que, justamente agora que a economia deles cresce, precisarão abrir mão de benefícios e hábitos consumistas, ou seja, na oportunidade deles, eles não poderão desfrutar daquilo que os americanos desfrutam há décadas?


Eis ai o maior desafio do Pós-Kyoto: envolver países em pleno desenvolvimento como o Brasil, a China e a Índia, que resistem à idéia de pagar, agora, as contas ambientais feitas no passado pelos países desenvolvidos.





A vida é uma interação

Todos os ecossistemas têm uma história construída ao longo da história da Terra. Uma fina rede de relações se estabeleceu e evoluiu durante milhares de anos, com expansões e retrações que responderam aos fenômenos que acompanharam a formação do planeta.
Com o passar dos estágios, estabeleceram-se dependências e interdependências. Estas relações determinam a manutenção de serviços ambientais como a água, a qualidade do ar e os regimes de chuvas, por exemplo. Determinam também diferentes tipos de ambiente para a vida humana, com toda a sua diversidade de interpretação do universo e do cotidiano. A eliminação de espécies altera profundamente esta rede de relações, com consequências muitas vezes imprevisíveis.
A diversidade de formas de vida na Terra é resultado - e em grande parte, a causa - das características do planeta: a atmosfera não teria oxigênio caso não existissem seres vivos capazes de produzi-lo e o atual regime de ventos depende diretamente de existência de áreas de florestas, do relevo e das correntes oceânicas, por exemplo. Nas teias de ecossistemas mais intrincados, todas as espécies modificam o ambiente e são modificadas por ele.
Biodiversidade significa a diversidade que existe entre os organismos vivos nos ecossistemas terrestres, marinhos e outros ambientes aquáticos e os complexos ecológicos dos quais fazem parte. Isto inclui a diversidade dentro de cada espécie, entre espécies diferentes e a diversidade dos ecossistemas. Além de sua importância para garantir serviços ambientais, a biodiversidade tem um valor intrínseco independente de qualquer necessidade humana.
Como fonte de serviços ambientais, o papel da biodiversidade pode ser resumido em:
·  função de suporte - incluindo o de base dos ecossistemas por meio da diversidade de estruturas, composições e funções;

·  função reguladora - pela influência da biodiversidade na produção, estabilidade e resiliência dos ecossistemas;

·  papel cultural - relacionado aos benefícios não materiais como os elementos estéticos, espirituais e de lazer proporcionados pela biodiversidade;

·  papel de provedora - relacionado direta e indiretamente a provisão de alimento, água potável, fibras e muitas outras coisas

As modificações nos ecossistemas levam inevitavelmente a uma transformação da diversidade de vida no planeta. Veja como:
·  sem o suporte da cobertura vegetal, que propicia inúmeras formas de vida, abrigo e alimento, todos os seres que nela habitavam ficam ameaçados;
·  mesmo que encontrem abrigo e alimento em locais próximos, podem ter seu fluxo gênico e de variabilidade interrompidos;
·  isso significa, ao longo dos anos, uma maior homogeneidade entre os indivíduos e, consequentemente, uma maior vulnerabilidade: os ecossistemas homogêneos são mais sensíveis a perturbações como introdução de um agente causador de doença ou de uma mudança no regime de chuvas.
Imagine uma cultura extensa, homogênea, formada por indivíduos susceptíveis ao ataque de um determinado vírus. O surgimento deste vírus pode exterminar com todos os indivíduos ao mesmo tempo. Deste modo, a biodiversidade funciona também como um escudo, pois mantém diferentes estratégias de sobrevivência e permite conferir uma certa estabilidade ao ambiente. Sem ela, serviços ambientais como disponibilidade de água e alimento ficam muito ameaçados.
Os pássaros, os insetos e o fluxo das águas têm uma relação que pode não ser óbvia para um observador distante. Mas olhando mais de perto, notamos que os pássaros e os insetos, por exemplo, têm hoje um papel fundamental nos sistemas naturais como dispersores de sementes; a manutenção dos solos depende de fungos, bactérias e invertebrados que nele vivem. Por sua vez, é este mesmo solo que dá suporte as matas e mantém-se poroso para a penetração das águas, que nutrem os rios e lagos.
O desmatamento e o uso excessivo de agroquímicos têm contribuído para o declínio de agentes polinizadores e seu déficit nos ecossistemas resulta em perdas de produtividade e de qualidade na agricultura. No longo prazo, isso pode resultar em uma crise também na produção de alimentos, já que cerca de três quartos das plantas agrícolas dependem de polinizadores.
Mas o que um habitante urbano tem a ver com isso? Tudo, pois isto também os afeta: a concentração em cidades não eliminou sua convivência com outros seres vivos, pelo contrário - favoreceu extraordinariamente algumas populações de insetos, mamíferos e aves, como os ratos - que seriam facilmente predados por corujas, por exemplo -, as baratas, as formigas, os fungos em geral, as bactérias causadoras de doenças e tantos outros organismos que ocorrem em grandes quantidades e causam horror aos habitantes.
Só nas cidades, com fartura de abrigo, abundância de alimento e sem seus inimigos naturais, estas espécies tiveram condições tão favoráveis. Reinam absolutas - e haja inseticida, dedetização, desratização, desinfetante... Infelizmente, São Paulo é uma cidade que atende a centenas de crianças mordidas por ratos todos os dias. Não são menos frequentes os acidentes com cobras, com escorpiões etc.
 Os Oceanos, economia e população.
Há uma previsão de que se a exploração predatória de peixes continuar nas taxas atuais, todas as espécies marinhas hoje comercializadas não estarão mais disponíveis em 2050.
No Brasil, a faixa litorânea abriga 25% da população; a indústria da pesca emprega 800 mil pessoas, responsáveis pelo sustento de cerca de quatro milhões de habitantes. Estima-se que 80% da produção pesqueira no Brasil esteja ameaçada.
A forma mais adequada de proteger o estoque de peixes é a manutenção de áreas de proteção, nas quais as espécies possam reproduzir-se e adquirir peso, tamanho e idade adequados à manutenção sustentável da atividade pesqueira. Recomenda-se que 20% dos oceanos sejam destinados à preservação; no Brasil, no entanto, somadas as áreas de proteção federais e estaduais, menos de 1% encontra-se nesta condição.
Os corais, já afetados em diversas partes do mundo, são o berçário, a fonte de alimento e o abrigo de inúmeras espécies de peixes; servem também como suporte a inúmeras quantidades de algas e organismos microscópicos. Quando alterados, põem em perigo todas essas espécies e, como consequência, diminuem a quantidade de peixes disponíveis, afetando não só a alimentação, mas a ocupação de milhares de pessoas em todo o mundo.
Florestas, sistemas complexos.
Florestas são sistemas complexos que se constituíram enquanto tal ao longo de milhares de anos: as espécies que as compõem estabeleceram, durante o processo de instalação do ecossistema, relações de cooperação, competição, co-evolução, simbiose e predação. A composição e os fluxos de matéria e energia das florestas resultam da interação de todos os seres vivos, entre si e destes com o clima, com o solo, com os minérios e com a água ao longo do seu processo de amadurecimento; são essas interações complexas que conferem um equilíbrio dinâmico ao ecossistema.
A exploração direta dos recursos, aliada à pressão por maior quantidade de terras para cultivo, levaram a um desflorestamento.
De acordo com o relatório do IPCC - Intergovernmental Panel on Climate Change (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), as atividades relacionadas com as florestas podem reduzir de forma considerável as emissões por fontes e aumentar as remoções de CO2 com custos baixos, podendo ser planejadas para combinar a adaptação às mudanças climáticas ao desenvolvimento sustentável. Estima-se que cerca de 65% do potencial total de mitigação está localizado nos trópicos e que cerca de 50% do total poderia ser alcançado reduzindo-se as emissões do desflorestamento.
As atividades florestais sustentáveis podem combinar geração de emprego e renda, benefícios para a biodiversidade e conservação das bacias hidrográficas, bem como a oferta de energia renovável e a redução da pobreza - enfim, todos os aspectos fundamentais para a adaptação às mudanças previstas no clima, que devem afetar a disponibilidade de água e alimentos, com consequências graves para a qualidade de vida das populações rurais e urbanas.
A expansão inicial da soja e, posteriormente, da pecuária em terras do cerrado e da Amazônia tem preocupado os observadores do clima: os desmatamentos precedidos de queimadas fazem com que o Brasil ocupe posição de destaque entre os países que mais emitem CO2 no mundo. Além disso, com a redução das florestas os solos, ficam expostos, apresentando maior risco de degradação; consequentemente, os reservatórios de água tornam-se mais susceptíveis à contaminação.
A redução das florestas no mundo todo traz como resultado o risco de extinção de inúmeras espécies; outras, desalojadas, podem buscar abrigo nas cidades, com consequências imprevisíveis: no Pará, em 2007, registrou-se um grave surto de raiva transmitida por morcegos recém-desalojados de seu habitat natural por causa do desmatamento.
Preservar a composição das florestas e suas interações é um dos desafios da sustentabilidade. A reconstituição de florestas, além de custosa, tende a ser imperfeita, pois dificilmente se consegue mimetizar as condições naturais que determinaram seus componentes e os serviços ambientais que são capazes de oferecer. Por isso, reflorestamentos podem ser positivos, mas o mais importante é conservarmos as florestas e outros biomas vivos - hoje é possível falar sobre florestas mortas - ou florestas vazias7 -, decorrentes da caça predatória de espécies; nelas, faltam as conexões que determinam sua manutenção.
Em algumas situações, a cobertura vegetal intacta não significa que a área esteja preservada: a caça indiscriminada de animais da floresta - macacos, onças, aves de todas as espécies -, o envenenamento de insetos e aves pelo uso inadequado de agroquímicos ou ainda a destruição de habitats naturais provocada por atividades extrativistas leva ao esvaziamento das matas. Mesmo que a cobertura vegetal resista por alguns anos, sua capacidade de auto-regulação e manutenção ficam seriamente comprometidas.
A ameaça à cobertura vegetal aparentemente preservada decorre do rompimento dos ciclos naturais de matéria e de energia, bem como da ausência de funções essenciais para a manutenção do ecossistema, como os de polinização e transporte de sementes, entre outro; além disso, ocorre também a uma drástica diminuição na quantidade de matéria orgânica disponível para decomposição no solo. Assim, com o tempo, essas florestas "mortas-vivas" tendem a entrar em declínio. 

do curso  www.bancoreal.com/sustentabilidade

CONSUMO CONSCIENTE





O vídeo "A história das coisas" explica bem essa tema também, que foi postado nesse tópico aqui:


http://blogecovida.blogspot.com/2009/08/aquecimento-global-uma-questao-de.html




A máxima de que para alcançar o desenvolvimento seria preciso promover o crescimento econômico movimentou empresas, mobilizou governos e incentivou pessoas no mundo todo: consumir significava participar do desenvolvimento. As primeiras preocupações relativas à pressão de demanda sobre recursos naturais vieram de correntes que viam no crescimento populacional a principal ameaça ao meio ambiente.


Atribuindo à bomba populacional o status de principal problema a ser equacionado, alguns economistas e teóricos propuseram a adoção de medidas de controle populacional como a principal saída para aliviar os riscos de escassez de alimento, de território, de água e suas desastrosas consequências para toda a humanidade. É nesta linha que Malthus, bem como os neomalthusianos, trabalharam.
Em Beyond the Limits, Donella Meadows, Dennis Meadows e Jorgen Randers publicaram simulações que levaram a previsões pessimistas quanto ao acesso a alimentos, derivando em uma proposta de crescimento zero, duramente criticada por países em desenvolvimento.
Sem menosprezar a relevância do planejamento familiar no mundo todo ou as contribuições do relatório do Clube de Roma em 1972, vale ressaltar que as principais ameaças vindas do excesso de consumo estão longe de ter relação com as áreas de maior crescimento populacional. As principais ameaças à saúde do ambiente vêm de um modelo de produção que não considera a capacidade de suporte da natureza e do consumo inconsciente.
Se os padrões de consumo hoje observados mantiverem-se pelos próximos 50 anos, precisaremos de mais um planeta para satisfazer as necessidades de todos os habitantes - e evidentemente, temos somente um.


O consumo foi intensamente estimulado como mola propulsora do crescimento econômico, o que deu origem a uma corrida sem precedentes à aquisição de bens, especialmente os não duráveis.
Gerou-se com isso uma exploração ameaçadora de recursos naturais e a geração de toneladas de resíduos todos os anos.
A capacidade regenerativa da Terra já não consegue acompanhar o consumo humano e a produção de resíduos. Os hábitos globais de consumo hoje superam em 30% a capacidade de reposição do planeta, ou seja, atualmente ele precisa de um ano e quatro meses para regenerar aquilo que usamos em um ano.


O consumo pode favorecer o bem estar até certo nível, mas não deve ser confundido com felicidade ou realização pessoal. Por exemplo, a valorização do indivíduo potencial, jovem, atualizado, eficiente, moderno e competitivo - modelo reforçado por um grande número de organizações - muitas vezes se confunde com a do individuo que vê na aquisição de equipamentos, especialmente os eletrônicos, um modo de manter-se competitivo na organização e no mercado, livrando-se do risco do estigma da obsolescência tão própria desse tipo de mercadoria.


É preciso consumir diferente para garantir a sobrevivência humana. Os consumidores têm um papel decisivo para introduzir a agenda de sustentabilidade em muitas empresas no mundo. No Brasil, já se pode detectar uma tendência à valorização das práticas socioambientais das empresas para a decisão de consumo. A atividade de consumo, quando ponderada e crítica, funciona como um incentivo a formas de produção que incorporem as melhores práticas socioambientais para garantir o bem estar presente e futuro.
A sustentabilidade a longo prazo depende de uma mudança profunda na dinâmica atual da produção e do consumo. Será preciso que a sociedade de consumo, chamada por muitos de "civilização do ter", caminhe em direção a uma "civilização do ser", onde os fatores de estímulo e de emulação social estejam referidos não ao crescimento da capacidade de consumo, mas ao desenvolvimento de cada um em suas capacidades humanas.


Texto do site curso   www.bancoreal.com/sustentabilidade